Um programador americano publicou na internet, de graça e com o código aberto, sete programas que imitam os principais aplicativos da Adobe: Photoshop, Illustrator, Premiere, Lightroom, Acrobat, After Effects e InDesign. O conjunto se chama ArtCraft, foi escrito do zero com agentes de inteligência artificial e saiu entre 30 de setembro e 1º de outubro de 2026. Em menos de duas semanas, os sete projetos somaram cerca de 110 mil estrelas no GitHub, o site onde ficam os projetos de código aberto, e, junto com a notícia, circulou a frase de que o software acabou.
A frase exagera, mas o caso aponta uma mudança real. Neste texto, explicamos o que é o ArtCraft e como ele foi feito, o que o placar do próprio projeto diz sobre o resultado, o que o caso indica sobre o que passa a ser possível com inteligência artificial e o que ainda não é.
O que é o ArtCraft
Cada programa do ArtCraft faz o papel de um programa da Adobe e copia dele os menus, os atalhos de teclado e a posição das ferramentas. A promessa, escrita na página do PhotoCraft, é que quem sabe usar o Photoshop já sabe usar o PhotoCraft. Todos são gratuitos, não pedem conta, rodam no Windows, no Mac e no Linux, e a maioria também funciona direto no navegador. A licença é aberta (MIT ou Apache 2.0, à escolha), o que permite usar, modificar e redistribuir o código.
| Programa | Faz o papel de | Versão em 12/10 | Estrelas no GitHub em 13/10 |
|---|---|---|---|
| PhotoCraft | Photoshop (edição de imagem) | 0.8.2 | 56 mil |
| PdfCraft | Acrobat (PDF) | 0.7.1 | 12,2 mil |
| FilmCraft | Premiere Pro (edição de vídeo) | 0.7.2 | 12,1 mil |
| LightCraft | Lightroom (biblioteca e revelação de fotos) | 0.7.1 | 11,7 mil |
| VectorCraft | Illustrator (ilustração vetorial) | 0.10.0 | 8,2 mil |
| EffectCraft | After Effects (animação e efeitos) | 0.9.2 | 6 mil |
| DesignCraft | InDesign (diagramação) | 0.7.1 | 3,6 mil |
Nenhum deles passou da fase inicial. O PhotoCraft e o PdfCraft se apresentam como versões alfa, a etapa em que o programa já abre e funciona, mas ainda tem falhas conhecidas. Os outros cinco aparecem como “em desenvolvimento”. O site do projeto lista ainda outros seis nomes, como WordCraft, SoundCraft e DeckCraft, que não fazem parte do conjunto lançado.

Quem fez e como
O autor é Brandon Thomas, programador de Atlanta, nos Estados Unidos. Ele diz ter 15 anos de mercado e experiência com projetos grandes em Rust, a linguagem de programação em que os sete programas foram escritos, e afirma que fez o conjunto com o Claude Opus 5.5, o modelo de inteligência artificial da Anthropic. O repositório confirma o uso do modelo de um jeito indireto: a lista do que falta no PhotoCraft estima cada tarefa em “horas de agente do Opus 5.5”.
O trabalho foi feito por agentes de IA, programas que recebem uma tarefa e a executam sozinhos, vários ao mesmo tempo, cada um numa parte do código. O projeto tem um arquivo de regras que todo agente lê antes de começar e uma lista de lacunas ordenada por importância, da qual cada agente pega a primeira que ninguém pegou. Ao terminar, o agente anota num diário o que fez e o que ficou aberto, para que o próximo continue de onde ele parou.
Duas regras desse arquivo explicam boa parte do resultado. A primeira é a do “quarto limpo”: os agentes podem estudar o Photoshop só pelo comportamento e pela aparência, e nunca copiar código, perfis de cor ou recursos visuais da Adobe. Tudo é feito a partir de especificações públicas, como a documentação do formato PSD que a própria Adobe publica. A segunda é a do teste: o PhotoCraft abre arquivos criados no Photoshop e compara, pixel a pixel, a imagem que ele desenha com a que o Photoshop desenhou. O resultado vai para um placar público, refeito automaticamente a cada mudança no código.

Quanto custa e de onde vem o dinheiro
Os sete programas são gratuitos. A empresa por trás deles, também chamada ArtCraft, vende outro produto: um estúdio de imagem e vídeo com inteligência artificial, cujo código está no GitHub desde 2022, que usa modelos de outras empresas, como o Nano Banana, do Google, e o GPT-Image, da OpenAI. O estúdio cobra por crédito, em planos de US$ 8, US$ 28 e US$ 48 por mês na cobrança anual, e também pode ser usado sem assinatura, com contas próprias nos serviços de IA.
O motivo que Thomas dá para o projeto é pessoal. Ele conta que pagou mais de uma vez a multa que a Adobe cobra de quem cancela a assinatura antes do fim do contrato, e que desde então não gosta da empresa. O tema tem histórico: em 2026, a Adobe fechou um acordo de US$ 150 milhões para encerrar um processo do governo americano que a acusava de dificultar o cancelamento de assinaturas. A empresa negou irregularidades.
O que funciona e o que ainda não funciona
As manchetes destacaram que o PhotoCraft abre e salva 307 de 309 arquivos de teste sem estragá-los. O número existe, mas mede outra coisa: se o arquivo continua igual depois de aberto e salvo pelo próprio PhotoCraft. São dois testes diferentes: a comparação que importa para quem trabalha com Photoshop é com a imagem que o Photoshop desenha, e nela a mesma coleção de 309 arquivos dá 236. O placar do projeto, em 13 de outubro, mostra:
| O que foi medido | Resultado |
|---|---|
| Itens de menu ligados a um comando que funciona | 631 de 631 |
| Arquivos criados no próprio Photoshop que o PhotoCraft desenha igual (o teste mais exigente) | 145 de 258 (56%) |
| Arquivos de uma coleção pública de teste desenhados igual ao Photoshop | 236 de 309 (76%) |
| Metas de velocidade cumpridas | 3 de 56 |
| Tempo para mover uma camada com sombra ou brilho | 321 milésimos de segundo, o que se sente como uma travada ao arrastar (a meta é 25) |
| Ajustes da tela de preferências que ainda não fazem nada | 26 de 156 |
Os testes de quem usou o programa vão na mesma direção. No Gizmodo, site americano de tecnologia, o repórter Mike Pearl escreveu que usar o PhotoCraft parece usar um Photoshop de verdade, só que cheio de falhas, e contou que a ferramenta de girar e redimensionar uma camada não funcionou, depois se desfez sozinha e só deu certo depois de várias tentativas. No OMG! Ubuntu, site sobre Linux, que testou uma versão anterior (a 0.3.0), o programa abriu rápido num notebook fraco, mas chegou a 5 GB de memória poucos minutos depois de abrir um arquivo do Photoshop, e o autor o chamou de “fac-símile superficial”: as funções parecidas no lugar certo não produzem o mesmo resultado.

O projeto mantém uma lista pública do que falta. São 17 lacunas em relação ao Photoshop 2026, e três delas impedem a versão beta, a fase seguinte de testes: abrir e salvar arquivos exatamente como o Photoshop, ganhar velocidade e resolver os erros relatados pelos usuários. Somadas, as estimativas da lista dão entre 2.270 e 4.000 horas de um agente trabalhando sozinho. O número não é um prazo: com vários agentes em paralelo, o tempo no calendário é menor, e o projeto não diz quanto. Algumas lacunas vêm marcadas como trabalho que precisa de uma pessoa. A inteligência artificial generativa, que o Photoshop já tem, é uma delas. Thomas escreveu num fórum que o projeto “não está nem perto de pronto”.
A questão jurídica
Até 13 de outubro, a Adobe não havia se manifestado publicamente sobre o ArtCraft, e não encontramos notícia de notificação ou processo. A página de cada programa diz que o projeto não tem ligação com a Adobe e que usa os nomes dos programas dela só para descrever a compatibilidade.
O direito autoral protege o código de um programa, não as funções que ele executa. Por isso o método do “quarto limpo” importa: ele serve como prova de que o código foi escrito do zero. Em análise publicada no blog jurídico TechnoLlama, o autor avalia que o projeto pode estar do lado certo da lei americana, se o método foi seguido de fato, e aponta os pontos mais frágeis em outro lugar: os termos de uso da Adobe, que proíbem a engenharia reversa (desmontar um programa para entender como ele funciona), as patentes que a empresa tem sobre o jeito de executar certas funções e a cópia da aparência dos programas. Circulou na internet a suspeita de que o Photoshop teria sido descompilado, isto é, convertido de volta em código para servir de modelo. Ninguém apresentou prova disso, e as regras do projeto dizem o contrário.
O que passa a ser possível
Sem o exagero do “software acabou”, o ArtCraft é uma demonstração concreta de quatro coisas que os agentes de IA passaram a fazer. Nenhuma delas depende de editor de imagem, e a lógica de cada uma serve fora do design.
Refazer um programa a partir do comportamento dele. Com documentação pública e a observação do original, agentes escreveram do zero programas que abrem os mesmos arquivos e respondem aos mesmos atalhos que os da Adobe. O ArtCraft mostra que um programador experiente, com agentes, chega a uma versão que funciona, ainda que com falhas.
Planejar o trabalho em horas de agente. O projeto não estima o que falta em dias de programador, e sim em horas de agente, com vários agentes trabalhando ao mesmo tempo a partir de uma lista. Em vez de “três programadores por seis meses”, a conta vira “tantas horas de agente, com tantos agentes em paralelo”. É outra unidade de medida para projetos que antes não cabiam no orçamento, como um sistema interno ou um programa feito sob medida. O caso ainda não mostra quanto isso custa nem quanto leva.
Construir programas para a IA usar. O PhotoCraft tem mais de 500 comandos que podem ser chamados de fora do programa, inclusive por um servidor MCP, o padrão que permite a um agente de IA usar um programa por meio de comandos. Com isso, um agente consegue abrir uma imagem, aplicar ajustes e salvar o resultado sem ninguém clicar em nada. Programas feitos assim desde o início permitem pedir a um agente o trabalho repetitivo que hoje é feito à mão. A diferença entre um servidor MCP e os outros jeitos de adaptar um agente está explicada no nosso post sobre os mods do Claude Code.
Trocar uma assinatura por uma ferramenta própria. Quem paga caro por um software do qual usa uma parte pequena passa a ter uma pergunta legítima para fazer: compensa construir uma ferramenta própria, só com o que a empresa usa, ou adotar um projeto aberto como o ArtCraft?

O que ainda não é
Chegar ao resultado do original. Copiar a aparência, os menus e o formato de arquivo foi a parte rápida. Fazer cada arquivo sair igual e cada ferramenta responder sem travar é a parte que a Adobe constrói desde 1990, quando lançou o Photoshop, e o placar do projeto mostra o tamanho dela: pouco mais da metade dos arquivos do Photoshop sai igual, e 3 das 56 metas de velocidade estão cumpridas.
Fazer sem saber o que medir. O modelo que o ArtCraft usou está à venda para qualquer empresa. O que não está à venda é o que foi montado em volta dele: o teste que compara cada imagem com a do Photoshop, a lista de lacunas ordenada por importância e as regras que todo agente lê antes de mexer no código. Os agentes executaram, mas o que contava como pronto foi decidido por gente, num projeto liderado por alguém que diz ter 15 anos de profissão.
Manter. O projeto tem duas semanas de vida pública. Quem vai corrigir, atualizar e responder por esses programas daqui a dois anos ainda não se sabe, e a própria lista de lacunas marca parte do trabalho como algo que um agente não termina sozinho.
Copiar sem risco. Como vimos na seção sobre a questão jurídica, reproduzir a aparência de um programa conhecido continua sendo o ponto jurídico mais discutido do caso.
Nossa leitura
O ArtCraft é um exemplo extremo de uma ideia que guia o nosso trabalho: o tamanho do orçamento pesa menos do que a clareza sobre o que se quer fazer. Um programador experiente, usando um modelo que qualquer empresa pode contratar, publicou uma imitação gratuita, ainda incompleta, de uma suíte paga que boa parte do mercado criativo usa há décadas.
Para quem tem um negócio, o caso sugere outra pergunta. Durante muito tempo, “dá para fazer?” era uma questão de orçamento e de tamanho de equipe. Para muita coisa, ela passa a depender de outra: você sabe exatamente o que quer e como vai medir se ficou certo? O ArtCraft chegou onde chegou porque tinha um gabarito, o próprio Photoshop. Em projetos de empresa, é justamente o gabarito que costuma faltar, e nenhum modelo de IA o escreve por você. Para ver em que ponto a sua empresa está antes dessa pergunta, o diagnóstico de maturidade em IA do nosso site é um começo.
Quanto à pergunta prática, a resposta por enquanto é não trocar. Para trabalho profissional, o PhotoCraft ainda não substitui o Photoshop, e é o próprio projeto que diz isso. Para abrir um arquivo PSD sem ter o Photoshop, fazer um ajuste simples ou acompanhar a evolução, ele já serve, e já chegou à versão 0.8.2 menos de duas semanas depois de sair.
Fontes
- Repositórios do ArtCraft no GitHub (github.com/storytold), em especial o README, o placar (docs/scorecard.md), a lista de lacunas (docs/gaps.md) e as regras para agentes (AGENTS.md) do PhotoCraft, consultados em 13/10/2026
- Página de preços do ArtCraft (getartcraft.com/pricing)
- Gizmodo, “Someone vibe-coded a free knockoff of Adobe Creative Suite” (inclui o acordo de US$ 150 milhões da Adobe)
- OMG! Ubuntu, teste do PhotoCraft 0.3.0
- t3n, entrevista com Brandon Thomas
- TechnoLlama, “Recreating Adobe: AI and the limits of software copyright”



